LAH1954

um blog de antigos alunos do Liceu de Alexandre Herculano, do Porto

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

E-MAIL DE CAMILO

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UMA PÁGINA DE CAMILO - O DA NOSSA AVENIDA





O pategâme nado e criado na cidade e nunca dela saído para umas férias de verão em a natureza aldeã não vai apanhar sequer pitada do que Camilo nos quer transmitir na sua e-mukanda.
Para os que, como eu, tiveram o privilégio de, nos anos 40, 50 e 60 com "elas" ter convivido no bucólico sertão transmontano e de lhes ter sofrido a avassaladora teimosia e ferocidade aqui se deixam as realísticas descrições e os muito reflectidos considerandos por Camilo. Chega esta página para se saber quem é Camilo... e para sabermos nós quem são elas, como são elas, como estão elas, as suas comportamentalidades, da sua perversa pertinácia, da sua pertinaz perversidade, do seu contumaz sadismo.
Pudessemos nós enxergar-lhes o riso e veríamos como ainda por cima se riem de nós, com a mais impregnada desfaçatês fugindo-nos em defensivos e voados pulinhos de triunfante polegar no nariz acompanhado por rápidas,  revolteadas e entre si alternadas flexões e extenções dos outros 4 dedos da malvada mãosinha caçoante...
Faz hoje, 16 de Agosto, 147 anos que Camilo escreveu, numa tarde de calor agostino, como a de hoje, o que vai seguir-se.
De par com a  faraónica mosquitada - com que Camilo abre o texto e agora é excruciante para ingénuos turistas algarvios - também "elas" nos continuam a afligir cruelmente.
São a mesmas, não mudaram...
Quem tem mudado sempre e muito, cada vez mais, sobretudo nos últimos tempos, para mais, muito mais,  cada vez mais, da mesma, é o resto ... que nos abafa por tudo o que é canto ou esquina do estrume à beira mar fermentado e fermentando
Pois então vamos lá (dispenso-me das àspas) :



AS MOSCAS

O demónio,que tem em si espiritualmente todos os maus                                                                                                                      costumes da mosca, quis também ter a sua exterior   figura . 
                                                                                       
                                                                                                      P.e. M. BERNARDES
                                                                                                              Flor., vol. 2º., pág.26



Este intróito vem, ao que parece, descabido num livro que entende em coisas antigas, posto que as moscas não sejam modernas.
Desculpem-me a impertinência do motivo.
Escrevo nas angústias em que o Faraó escreveria naqueles dias da excruciante praga dos mosquitos. Zumbem à volta de mim em legiões que irrompem das carvalheiras vizinhas das minhas janelas.
De cada ferroada dolorosa, espirra uma gota do suor do frenesi. Trespassam-me com os seus estiletes até ao cérebro. Está como sujo e sevandijado delas todo o laboratório das minhas ideias.
Salta-me de repente a ideia explicativa da míngua de escritores neste país das moscas. Não há cabeça de ferro que vingue resguardar delas os camarins do pensamento. Ao quarto estio, como que os mais viçosos e esperançados engenhos sorvam-se e apodrecem conspurcados por estes demónios, como judiciosamente lhes chama o meu oratoriano Bernardes.
Que fez a antiguidade, que fizeram as civilizações em favor do género humano contra as moscas?
Aqui vem o justificado encabeçamento deste assunto em matérias muito mais levantadas, mas certo menos aconchegadas dos padecimentos da humanidade.
O que fizeram as civilizações contra as moscas? Boa pergunta! Não fizeram nada. Milhares de inventos e aperfeiçoamemtos nos diversos sistemas de matar a gente, isso sim. Quanto ás moscas, estamos como no princípio: matamo-las como Eva matou a primeira que lhe ferrou as suas bentas nalgas: às bofetadas.
Li, pouco há, o Dicionário de Conversação, repositório de toda a ciencia sobre tudo, inclusas as moscas. Que diz? Manda-nos fazer gabelas de fetos, pendurá-las, esperar que as moscas se empoleirem à noite e apanhá-las num saco. Que progresso! Este sistema insecticida data da invenção dos fetos e dos sacos.
Há uns papéis impregnados de peçonha que as matam; mas que náuseas e sujidade! As moribundas vêm espernear sobre a carta anilada que escreveis à vizinha, escabujam agonizantes no vosso tinteiro, e outras vezes morrem-vos nas orelhas ou nas fossas do nariz, quando se vos não agarram, nas ânsias da morte, a uma pestana.
Tamanho medo e horror cobraram o antigos das moscas que se apegaram a um deus que os defendessem delas. Míodes e Júpiter apómio eram as divindades eleitas para a destruição das insolentes sevandijas. Belzebu, diabo e mosca tudo é um. Belzebu quer dizer «ídolo das moscas» - nome posto ao ídolo dos Acaronitas, à conta dos enxames delas que referviam sobre a sangueira das vítimas imoladas ao ídolo. Um dos títulos mais razoáveis que o demónuio tem é o de Príncipe das moscas.
E, todavia, perversíssimos talentos escreveram a apologia das moscas. Estes celerados chamavam-se neste mundo Luciano e Leão Baptista, sujeitos que eu nunca li, nem viria a conhecer de nome, se o padre Manuel Bernardes mos não apresentasse para que eu os mande deste livro eterno à execração da posteridade.
Heliogábalo presenteava os seus amigos com moscas vivas. Que mimo! E que amigos ele tinha!
Imperadores podem dar moscas e coisas piores que tudo lhes será encarecido.
Já um adulador palaciano disse a um rei que as moscas que o mordessem e participassem do seu real sangue seriam de melhor casta do que as outras. A meu juízo, a mosca cevada na anca de um gordo onagro leva vantagem à que dessangra algum costado arganaz de rei. Reis e onagros são iguias perante a mosca. Não há bestinha-fera mais democrática do que esta!
E mulheres chamadas«moscas»! Era sobrenome insigne e amorável de poetisas em Tebes e Esparta. Mosca se apelidou uma filha de Pitágoras, e outra em quem o meu Bernardes desfaz com justíssima razão, dizendo que «foi assim chamada porque era famosa meretriz amiga de se pôr nos corpos para lhes tirar o sangue». Santa Maria Egipcíaca, antes de santa, não foi das melhores moscas; depois um padre, Teófilo Rainaldo, querendo nobilitar com foros celesteais a mosca, denominou-a santa: «mosca mística». Que não dirão Teófilos!
O diabo é mosca.
A poetisa é mosca.
A meretriz é mosca.
A santa é mosca mística.
Em verdade, a mim hoje, neste ardentíssimo 16 de Agosto de 1866, tudo me parece moscas, e todas, sem excepção das místicas, remeto ao demónio, como princípe delas.
Eis um caso em que o demónio para ser pessoa de bem se transfigurou em mosca. Há-de ser contado por quem fez da língua portuguesa a mais graciosa do mundo:
«...Chuniberto, rei dos longobardos, retirando-se a um aposento interior, consultava com um ministro seu confidente a morte de outros dois que lhe eram odiosos. Veio ali neste tempo uma mosca que o rei quiz matar com um canivete que acaso tinha na mão; mas escapou-lhe e somente lhe cortou um pé. Vieram depois aqueles dois homens ao palácio ignorando o mal que contra eles estava determinado. Porém, sem se saber como nem por onde, apareceu-lhes ali um coxo que trazia um pé postiço de pau; o qual os avisou que se retirassem logo, porque estava el-rei determinado a os matar. Eles assim o fizeram recolhendo-se à igreja, ao corpo de S. Romão mártir. Admirado Chuniberto de se revelar um segredo que não tinha passado do seu peito mais que à notícia daquele conselheiro, o qual se não tinha ainda apartado da sua presença, mandou perguntar aos homiziados por que causa haviam fugido; e, confessando eles a verdade, se entendeu que aquela mosca do pé cortado era o mesmo coxo do pé de pau, isto é o demónio já em uma, já em outra figura, conforme para a sua malícia e fraudulência lhe foi necessário.»
Notem leitores, que o demónio é como alguns anjos infelizes deste mundo: até na prática das boas acções são maliciados de fraude e trapacice. O padre congregado, que conta a história, veracíssima como todas as suas histórias, querendo à fina força menoscabar aquela meritória acção do infernado príncipe, pondera:
« Não faça dúvida que o demónio não é o que atalha homicídios, senão o que induz a eles: porque não seria esta a última vez que Deus obriga a este seu inimigo a desmanchar as mesmas teias que tinha urdido; e assim bem podia achar-se na consulta da morte, e depois na revelação do segredo.» (1)
Que lógica! Não se pode ser demónio honrado, nem desgraçado bom neste mundo!
Tornando às moscas, o inferno estava despovoado, se estas, que eu vou matando, a murros, fossem diabos.
Quem pudesse ser elefante neste mês de Agosto! O elefante, assim que a mosca lhe toca, arruga o coiro e esmaga-a. Que deleitação carniceira a dos felizes deste mundo encoirados como elefantes! Umas caras que a gente vê capazes de se enrugarem e entalarem não só moscas, mas peruas que pousassem nelas.!
Por último, leitor que sofre moscas, o que Vossa Excelência me pede, é remédio que as dizime e afugente? Ei-lo aí extraído de Aldrovandi, no liv. 3º. De Insectis: Pendura-se no tecto a cabeça ou a cauda dum lobo.
E mais nada.
A dificuldade é achar lobos: nestas terras onde eu vivo os lobos são comidos pelas moscas.
(1) Flor., vol. 2.º, pag. 27.
Testo publicado in: CAVAR EM RUÍNAS . 7ª edição, conforme a 1ª, revista pelo autor. 1976. Parceria A.M.Pereira Lta. Lisboa
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